~~~~~ Filosofias Salgadas (Morto) | Oceano Pensante (Renatito) ~~~~~


sábado, março 28, 2009
Iceberg

A casa fica à beira do rio, com dois metros de orla que fazia as vezes de calçada. Dentro da casa, de madeira mas com banheiro de material, com azulejos e tudo o mais, várias quinquilharias valiosas: calotas de carros, portaretratos, violões quebrados e por aí afora; posses que outrora eram de diversas pessoas, agora, era tudo parte de seu almoxarifado particular.

Ele saia de manhã para trabalhar e no percurso ia coletando essas miudezas, de vez em quando nem tão miúdas assim... Não era casado, nunca fora. Não tinha filhos, tampouco os queria. Pai e mãe já há muito falecidos. Amigos? Talvez o cusco, guardião da residência, fosse o mais próximo a isso – e não podia reclamar, nesse sentido, pois que não havia no mundo companheiro mais presente e fiel que aquele vira-latas.

A construção civil era o seu ganha pão. Pão dormido e mofado, velho e insosso, mas não passava fome. Era um bom servente: dedicado, caprichoso e pontual. A única reclamação que frequentemente se escutava a seu respeito era aquela sobre seu jeito: sempre de cabeça baixa, caladão. Ele não se importava, chegou a conclusao de que tinha todas aquelas posses e um amigo verdadeiro – o que é mais difícil de se achar do que diversos amigos de trago, não é mesmo?

E assim ele sobrevivia ao cotidiano, aumentando sua fortuna e espólio e estreitando os laços de amizade com o herdeiro das contas – seu companheiro canino. Para todos os que estavam alheios ao seu mundo, nada naquela vida valia qualquer coisa; e o significado de tal existência, aonde fica? Fato é que para ele o mundo externo ao seu também não significava nada.

Fatídico foi o dia em que, por conta do aquecimento global – algo que ela já havia escutado no radinho de pilha, aquela caixa de abelhas -, o nível do rio subiu demais e sua casa ficou reduzida ao banheiro. Sua mina de riquezas, seus pertences mais preciosos, aquela tentativa desesperada por uma nesga de dignidade, que justificava sua bizarra coleção de objetos, fora destruída por um dos males do mundo exterior, essa coisa da enchente...

Perdeu sua casa, seus pertences e, por isso, sua identidade. Até mesmo o cachorro o abandonou, outra força do mundo exterior: o tal do controle de zoonoses.

E ele, que nunca havia feito parte daquele mundo louco, o qual ele simplesmente não entendia – e nunca fizera a menor questão de entender -, acabou por ser notado e comentado por todos na cidade: saiu estampado na manchete da capa da frente do principal jornal da capital, a chamada da matéria como o reflexo e o exemplo da grave crise social em que vivemos: “Indigente pula da ponte ao meio dia, causando engarrafamento”. Na verdade, ele não o fez por mal; se soubesse que iria causar tamanho transtorno, teria se jogado de madrugada.




domingo, março 15, 2009
O sabá futebolístico...

Sábado, dez horas da noite. Há que se cogitar a idéia de um boteco na Lima e Silva ou coisa que o valha. Porque sábado à noite é quando as pessoas saem de suas tocas para conhecer outras. Ou, quando se está ficando velho, fica-se em casa, talvez lendo um livro, vendo um filme, preenchendo cruzadinhas... Agora, o estranho é jogar futebol num dia e horário como esse. Seja como for, aconteceu: marcamos, meus amigos e eu, uma peleia braba nessas condições.

O jogo em si foi legal; bom, podia ter sido melhor; na verdade, foi uma bela bosta. E o que esperar? Afinal, todo mundo tava com a cabeça no que poderiam estar fazendo ao invés de participar daquela presepada. Eu até me diverti porque o meu programa de sábado a noite seria aquele dos velinhos mesmo...

Só que, daí, antes de sair de casa pro jogo, uma amiga me convidou pra sair com ela, pra conversar e talvez uma cervejinha. Claro, rejeitei. Meio sem jeito, mas fazer o quê: compromisso com a bola. Durante o jogo, conversando com um adversário, que vinha a ser um amigo também, a gente começou a pensar na possibilidade de dar umas bandas depois. Legal, foi uma boa ideia. Mas o jogo terminou às onze e meia, porque havia começado mais tarde do que o horário combinado inicialmente. Quando cheguei em casa, dei comida pros gatinhos - que ainda não desmamaram, então, tenho que empurrar uma solução de iogurte natural, gema de ovo, leite condensado e leite, goela abaixo - comi alguma coisa e tomei um banho. Feito isso, tive a péssima ideia de olhar pro relógio antes de ligar pro pessoal: uma da matina. E lá se foi o sábado à noite...

Buenas, optei pelo seguinte: som - já rolou: Down, Dave Matthews Band, Foo Fighters e agora Living Colour- , ver e-mails, escrever isso aqui e talvez um filme em seguida. Entretanto, agora são três da matina e isso me desanima, porque sei lá que horas vão ser quando acabar o filme. Acho que vai sobrar a opção "C" que eu ainda não havia mencionado: dormir.




segunda-feira, março 02, 2009
Ponderações

Um bafo do caramba e essa chuva só faz piorar. Pelo menos estou em casa, vou almoçar e só depois vou pro trabalho. Não que eu esteja matando a labuta: tive dentista hoje de manhã e todo mundo estava de sobreaviso sobre isso. Claro, haverá reclamação quando eu chegar, mas isso não me supreende mesmo e por um lado até é bom, já que dá aquela sensação de que realmente faço alguma coisa importante por lá - o suficiente para notarem minha ausência, pelo menos.

Essa semana e a próxima serão difíceis; tenho que lidar com esta casa e com os bichos e tudo por mim, sem ajuda. Normalmente é a mãe quem faz isso, mas como ela foi viajar a responsabilidade recai nos meus ombros. Nada que eu já não tenha feito antes, mas é que não foi minha escolha e isso me incomoda. De qualquer maneira, tem seu lado positivo: posso tomar umas cevas e fumar um cigarrinho sossegado além de poder refletir mais profundamente sobre coisas que têm me afetado, de alguma maneira. E isso me faz ter aquela vontade de morar sozinho, de sair da saia da mãe, aumentada.

Enfim, vou almoçar e pôr o pé na sarjeta, que mais parece um riacho... Trabalho em dia de chuva deveria ser ponto facultativo.






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