~~~~~ Filosofias Salgadas (Morto) | Oceano Pensante (Renatito) ~~~~~


sexta-feira, setembro 11, 2009

Zacarias fumava o último cigarro do dia, na sacada de casa, enquanto observava, já em pijamas, as luzes do morro logo a frente. Aquelas luzes artificias, diversas casas em que as pessoas invariavelmente conversavam, olhavam TV, preparavam-se para o repouso. Noutra época seriam fogueiras ou vagalumes, mas não eram mais esses tempos: as luzes eram de lâmpadas incandescentes. Espremia a bituca no cinzeiro e sentava-se na beirada da cama. Puxava o ar com força, para depois espirar com calma. Deitava-se. Ao seu lado, Grasiela já havia pegado no sono. Ele sorria ternamente, ajeitava-se e fechava os olhos. A partir daí, as coisas eram bem diferentes.

Enquanto os outros dormiam efetivamente e sonhavam - como um bom dormidor o faz -, Zacarias apenas apagava. A consciência se desfazia como um castelo de areia e aos poucos, os sentidos acompanhavam. Som nenhum era ouvido. Cheiros esvaziavam-se. O tato era inerte e todo o peso do mundo não seria páreo para seus braços e pernas. Mas nada disso era um sono, de fato. Ele apenas cumpria o ritual de fechar os olhos e deixar a mente esvaziar-se.

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Num outro canto da cidade, um reflexo era enxergado. Uma luz, lá fora, que atravessava a persiana e batia na parede oposta à cama. Ele observava aquilo e, sem qualquer cerimônia, num pulo só, saia da cama. Totalmente nú, seguia para o banheiro e jogava água no rosto, maquinalmente, apenas para tirar o ranso. Vestia a roupa e seguia para o único ritual cotidiano que possuia: dois dedos de uísque - importado, doze anos -, e um cigarro. Abria a janela e observava a quase ausência de movimento na rua enquanto dava a última tragada e o último gole. Pegava a jaqueta de couro, olhava para o relógio - madrugada -, e saia do apartamento. E a passos largos, tomava a calçada, todos lhe cumprimentando.

- Daí, HP! Tá indo pra onde? Vai ser boa a noite hoje, né?
- Apenas conduz. Te aviso quando deve parar.

O motorista era bem acostumado com o sujeito, mas não gostava de como tratava-o. Na verdade, HP era assim com todos. Ele era um homem misterioso, um espião de filmes noir. Sua alcunha por exemplo, vinha de "Herr Persona", porque o pouco que sabiam dele era sobre sua descendência alemã e que dançava conforme a música que estava a tocar: estava sempre atuando. Mas seu nome verdadeiro nem ele jamais mencionara.






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